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João Pedro da Silva vive drama no Royal Viking Sun

Na sexta-feira, 13, do corrente ano, o navio Costa Concordia colidiu com rochas no fundo mar italiano e adornou até em cima das rochas com um elevado grau de inclinação. Há alguns anos, em 1996, o madeirense João Pedro da Silva, estava a bordo do Royal Viking Sun quando se deu um acidente semelhante.

No entanto, a frieza do comandante evitou que registassem vítimas e o navio seria recuperado num estaleiro de Malta.
Apesar de tudo, chegaram a viver momentos dramáticos quando o paquete embateu à entrada do Canal do Suez. Curiosamente tinha como porto de destino Civitavecchia, de onde partiu o navio da Costa Cruises que naufragou.
O madeirense João Pedro da Silva tem uma longa vivência marítima feita a bordo de navios de cruzeiro de renome mundial.
Além das muitas milhas náuticas que percorreu e do muito que aprendeu e conheceu, também apanhou um susto quando o Royal Viking Sun. Este navio é hoje o Prinsendam, da Holland America Line. Trabalhava no restaurante quando este embateu no Mar Vermelho, perto de Sharm el Sheik, no Egipto e ficou encalhado num recife. Um pouco parecido com que se passou na semana passada com o Costa Concordia, depois de sair da cidade italiana de Civitavecchia. Curiosamente, era o porto de destino do navio cuja companhia tinha sido vendida Cunard.
Contudo, as parecenças ficam pelas rochas em que embateram os dois navios de cruzeiro. Isto porque os desfechos foram diferentes.
Enquanto a história do navio italiano, da Costa Cruises, é a que se conhece e vai aprimorando o que realmente se passou naquela noite de 13 de Janeiro último, no Royal Viking Sun, a frieza e agilidade do comandante Ola Marsheim terão evitado que o navio fosse ao fundo, ou que tivesse conhecido consequências mais graves.

Viver o acidente
O local do acidente

Presentemente a descansar em terra, na Madeira, onde, aliás, já se encontra há algum tempo, depois de ter feito uma nova temporada a bordo de um navio de cruzeir.
João Pedro da Silva contou o que é viver um acidente num navio de cruzeiros. E, sobretudo, conseguir  sobreviver, tal como aconteceu com todos as 996 passageiros e tripulantes que se encontravam a bordo. Só passageiros eram 560.
Recordou o que aconteceu naquela noite de 6 de Abril de 1996.
Apesar dos anos que passaram, ainda tem bem presente tudo o que se passou no acidente que fez o navio ter de ir para um estaleiro em Malta para ser reparado durante dois meses. Trabalhos que levaram a companhia a desembolsar mais de 7 milhões de libras em indemnizações.
Curiosamente, neste acidente, além dos passageiros que estavam prestes a terminar a volta ao mundo, encontravam-se ainda outros a bordo que haviam embarcado depois do Vistafjord, outro navio da Cunard, ter passado por incêndio no dia 26 de Fevereiro e ter distribuído os passageiros pelos navios que estivessem na proximidade. Isto quer dizer que os passageiros do navio de linhas tradicionais no seu tempo, acabaram por ter dois acidentes.

Não que temer cruzeiros
João Pedro da Silva (à direita) a bordo do Royal Viking Sun

Apesar do susto que passou a bordo do Royal Viking Sun fala por experiência própria que não há que temer continuar a fazer cruzeiros nos navios que cruzam os mares de todo o mundo.
Em relação ao que passou lembra que o navio se preparava para atravessar o Canal do Suez em direcção ao Mar Mediterrâneo. Recorda a hora precisa em que se deu o embate: 22.15 horas.
João Pedro da Silva diz que tinham acabado o jantar da noite norueguesa. Por isso, estava vestido a rigor, com traje vermelho, conforme se pode ver numa das fotografias deste trabalho. Na sala, só está o tripulante madeirense e o chefe de vinhos.
Segundo refere, o comandante está num cocktail, em mais uma acção junto dos clientes que reconhece ser muito dedicado.
Diz que na ponte de comando deveria estar o segundo comandante, que também não estará por lá.
O Royal Viking Sun navega a 19 nós numa zona com alguns recifes.
É então que, ao sentir algo de estranho, diz ao colega que bateram numa rocha ou em algum cargueiro. O que quer que seja imobiliza o navio de luxo de quase 38 toneladas
de arqueação bruta. E começa a adornar.

“Não seja desta vez”
O navio no estaleiro, onde esteve 2 meses em reparações

Senta-se no chão assustado e reza a Nossa Senhora a quem pede para que “não seja desta vez”.
Enquanto tudo acontece acentua que o seu amigo comandante Ola Marsheim (que hoje está noutro projecto e o quer levar para o segundo navio em construção) toma várias decisões. Uma delas é o encerramento de portas de segurança para manter o navio estanque e assegurar que não afunde. É a aplicação de um dos muitos exercícios que toda a tripulação treina com insistência. Inclusivamente João Pedro da Silva, muitas vezes treina o processo de fechar as portas, assegurando-se que ninguém ficou para trás.
Depois, o comandante mandou acordar quem pudesse estar a dormir.
São encaminhados para o deck 7 onde está o restaurante principal. Alguns tripulantes são encarregados de tomar conta dos seus passageiros a quem são entregues lençóis, cobertores e almofadas para passarem ali a noite com o melhor conforto possível.
O comandante pede paciência a todos os tripulantes e diz-lhes para telefonarem gratuitamente para as suas famílias para as tranquilizar. João Pedro da Silva liga à mulher
e diz que tudo está sob controlo.

Colisão no património

Outra das medidas que o comandante toma é o pedido de auxílio. Um navio de cruzeiro que está nas proximidades, através de cabos passados, tenta uma manobra para libertar o paquete das rochas. Mas foi em vão.
Com esta solução inviabilizada, o comandante contacta as autoridades do Egipto que terão dificultado o apoio.
João Pedro da Silva diz que querem uma indemnização pelo facto do navio ter colidido com algo que consideram património seu.
Apesar do desconforto, a companhia decide aceder às pretensões egípcias e procede à transferência da verba pretendida.
A maré baixa e o navio adorna mais. E aí diz que surge algum pânico a bordo.
Mas, por aquelas alturas da manhã, os rebocadores chegam e retiram o navio e apoiam até atracar em segurança em Alexandria.
Durante todo o processo, acentua que o comandante fala a todos de meia em meia
hora para dar conhecimento da situação.
Ficam dois dias no porto de Alexandria para dar apoio no desembarque dos passageiros
que seguiriam de avião para o Aeroporto de Heathrow, em Londres. O comandante reúne com os tripulantes que os acompanharão e pede-lhes que dêem todo o apoio possível.
Alguns têm de ficar a bordo.

A mesma roupa 3 dias
A roupa que usou 3 dias

João Pedro da Silva tem sorte de não ter chegado água à sua cabine, mas só tem permissão para lá ir para trazer a sua mala antes de embarcar no avião. Não há banhos nem mudança de roupa. Chega à capital inglesa com a mesma roupa que vestiu há três dias para a noite norueguesa. Uma das pessoas que acompanha é uma idosa (que pode ser vista numa das fotos deste trabalho a seu lado) que conhece há algum tempo e por quem tem muita estima.
Quando chegam a Londres uma vasta equipa, que inclui psicólogos aguarda passageiros
e tripulantes.
João Pedro da Silva diz que as pessoas, apesar do sucedido, devido ao apoio inesgotável que receberam e pela actuação que reconheceram no comandante, acabam por perdoá-lo.
Antes de embarcarem para Heathrow, as autoridades egípcias mandam abrir as malas a todas as pessoas. Apesar de aborrecidos com tudo o que já se passou, colaboram.
Posteriormente, o navio segue viagem para Malta, com rombos acentuados no casco.Por lá fica durante dois meses para trabalhos de recuperação intensos. E hoje ainda navega por
esses mares para a Holland America Line, com outras cores.
Em nota de rodapé, a propósito do acidente do Costa Concordia, João Pedro da Silva admite que possa ter havido erro do comandante naquela rota que não se recorda bem se a
fez alguma vez. Contudo, reconhece que a tripulação esteve à altura na operação de desembarque de emergência.

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