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Luigi Cabrini diz que o turismo tem de trazer benefícios económicos e sociais à população local

Luigi Cabrini numa das suas muitas viagens pelo mundo
(foto: DR)
Luigi Cabrini, Chairman do Conselho Global de Turismo Sustentável e conselheiro do secretário geral da Organização Mundial de Turismo, que esteve no Funchal em maio como orador no evento Smart Cities Funchal 2017 considera que o turismo tem de trazer benefícios económicos e sociais à população local. Complementa que os critérios do Conselho Global Sustentável assentam em quatro pilares: meio ambiente, economia, social e gestão. "Acreditamos que se for utilizado como uma boa ferramenta vai contribuir para o balanço certo entre os residentes e as necessidades dos turistas", conclui este especialista italiano, uma grande autoridade quando se fala de Turismo sustentável e responsável, de turismo inclusivo.


O que pensa deste destino turístico português, o mais antigo de Portugal?
É um prazer voltar à Madeira, onde estive em 2008 por ocasião da Conferência Anual do Turismo. Não tive muito tempo. Visitei algumas partes da ilha mas estive mais no Funchal  onde guardo boas memórias do Jardim Botânico, e de mais alguns outros lugares no centro da cidade.
É um grande destino com um grande potencial e, por isso, estou contente por ter podido voltar agora.

Que ideias ou ideias pretende que as pessoas fiquem depois de ouví-lo na conferência Smart Cities, que teve lugar este mês na cidade do Funchal?
Um dos objetivos desta conferência é transmitir boas e positivas mensagens acerca de destinos. Temos de considerar que hoje em dia, só o lugar não é suficiente para atrair turistas. É necessário transmitir uma mensagem que uma visita a esse lugar será uma experiência maravilhosa e que haverão emoções e experiências para serem vividas nestes destinos.
Espero que existam boas ideias, boas sugestões e recomendações para os responsáveis da administração do turismo na cidade. Fico feliz em poder dar os meus modestos conselhos, em nome da Conselho Global de Turismo Sustentável, que é a organização pela qual sou responsável, com mensagens que acreditamos serem importantes para destinos turísticos hoje em dia.

O que é uma cidade inteligente? É a cidade que preserva sua riqueza histórica e cultural ou aquela cidade que apaga o que está por trás e aposta apenas no futuro?
A diferente definição de smart cities reside no conceito da utilização de infraestruturas tecnológicas de vanguarda. Mas gosto mais de usar uma definição que foca mais a cidade como um destino turístico. Isto pode ser visto como um espaço turístico consolidado na base de uma infraestrutura tecnológica, com um sistema que recolhe toda a informação, analisa e compreende se as coisas decorrem no tempo certo, e facilita as decisões e a interação com os visitantes e o meio ambiente turístico.
Uma cidade inteligente é um destino inovador com ferramentas acessíveis, que integra os turistas residentes e que proporciona um turismo sustentável.

Uma cidade como o Funchal, que concentra uma grande parte das dormidas turísticas, além de ser a capital da ilha onde vive perto de 3/4 da população, que cuidados deve ter para conciliar a experiência saudável entre os moradores e aqueles que a visita?
É importante encontrar o balanço certo entre as necessidades dos residentes e as necessidades dos visitantes.
Conhecemos experiências de situações problemáticas em cidades como Barcelona ou Veneza, onde o grande número de turistas acaba por ter aspectos mais negativos que positivos. Por isso, considero que este balanço é muito importante.
O turismo tem de trazer benefícios económicos e sociais à população local.
Os critérios do Conselho Global Sustentável assentam em quatro pilares: meio ambiente, economia, social e gestão. Acreditamos que se for utilizado como uma boa ferramenta vai contribuir para o balanço certo entre os residentes e as necessidades dos turistas.

É pacífico que a Madeira nunca foi, não é e não se destina a ser um turismo de massa. Colocando este problema de parte, que se evidencia em outros destinos, que preocupações deve ter um destino como a Madeira com uma oferta hoteleira pouco superior a 30 mil camas?
Muitas vezes, não ser um destino de massas é uma vantagem. Permite às partes interessadas no turismo estarem habilitadas a oferecerem um produto que pode trazer benefícios positivos ao contrário de destinos com muitos turistas. Penso que todos os destinos, independentemente dos tamanhos, devem guiar-se por uma aproximação sustentável. Mesmo um destino pequeno pode sofrer dos problemas dos grandes destinos de massas, que podem até ser bem geridos. Não é necessariamente o número de turistas que está em causa mas a forma como cada destino é gerido.

O turismo sustentável é uma moda ou realmente é preciso agir para preservar ou mitigar seus efeitos no futuro?
Definitivamente, sustentabilidade no turismo não é uma moda. Hoje temos a 1.200 milhões de turistas internacionais, um número que chegará a 1.800 milhões em 2030. Por isso, sustentabilidade não é uma opção mas uma necessidade.
Além disso, o produto turístico sustentável é um produto de qualidade que tem a ver com autenticidade e com as comunidades locais. E existe, portanto, uma maior procura de turismo sustentável.
Definitivamente, cada vez mais os governos, o setor privado e as grandes cadeias hoteleiras, estão a acolher o turismo sustentável.

Que preocupações deve ter o turismo sustentável em pequenos destinos como a Madeira?
Há destinos em ilhas como a Madeira que podem ser mais vulneráveis a questões como o impacto das alterações climáticas. A Madeira não é um destino de massas, o que é um aspecto positivo, mas em termos ambientais tem de ter em conta vertentes como os transportes e disponibilidade de certos materiais e recursos. Tudo isto deve ser tido em conta.

A sustentabilidade significa um maior investimento por empresários e governos?
Coordenei, quando fui diretor do turismo sustentável na Organização mundial de turismo, um estudo importante juntamente com as Nações Unidas chamado “Turismo numa economia verde”. Uma das conclusões importantes deste relatório foi que, embora seja preciso um investimento para, por exemplo, reduções de consumos energéticos ou controlo da regulação das águas ou até proteção da diversidade, o retorno destes investimentos faz-se rapidamente. Por exemplo, investindo em poupança de energia em hotéis, normalmente o investimento é recuperado em 2-3 anos, e após o terceiro ano já existe lucro. Portanto, existe um interesse económico do sector turístico em aplicar a sustentabilidade.
No entanto, os hotéis pequenos não terão o capital necessário. Por isso, no início, será importante que os governos ou outras entidades públicas possam subsidiar alguns destes investimentos iniciais. Esta será, provavelmente, uma medida que compensará a longo termo para o país ou destino turístico, resultando em poupanças para todo o território.

Que mensagens deixa para cativar cada turista para o turismo sustentável?
Deixo algumas mensagens importantes em termos de turismo sustentável. Uma mensagem é que os viajantes e os consumidores que usem um produto sustentável estão a contribuir para reduzir a contaminação e o impacto negativo ambiental na Terra. É uma mensagem importante, sobretudo para captar as gerações mais novas.
A outra mensagem é que um turismo sustentável é um turismo de melhor qualidade. Visitar um hotel ou um destino que aplique um turismo sustentável, que tenha atividades que sejam respeitadoras da Natureza e que respeitem os costumes locais, de facto influencia a qualidade da visita.

Outra mensagem importante para a indústria do turismo é que vamos tentar passar mensagens informando os turistas “O que ganham os clientes com esta visita?”. Os turistas só têm a ganhar pois é um turismo mais autêntico, às vezes até mais interessante. Portanto, é importante passar a mensagem que para além de ser melhor para o ambiente, também é o melhor para o turista.

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